Texto de Beatriz Margem
Passou a repetir aquele momento todos os dias no mesmo horário. Quase como um ato solene. Não importando o que estivesse fazendo, parava.
Porque Alice gostava de se deitar no chão e sentir a chegada da noite, a mudança das cores. As tonalidades da luz. A transmutação do som e dos cheiros, o sentido de indefinição do momento.
Nem noite, nem dia. Nem claro, nem escuro. Nem quente, nem frio.
Pensava absorta em devaneios.
Com as luzes apagadas, quando a noite já havia invadido pela janela, ainda deitada sobre o chão que esfriava, esbarrou com a cabeça em um lápis caído.
Aproveitou aquela sensação de liberdade, tão preciosa naquele tempo de rareamento de boas notícias, e deixou palavras soltas repousarem sobre o papel.
Entre rabiscos desenhados, olhou as palavras escritas e viu um pequeno poema sobre seus fins de tarde azul-escuro.
Faz silêncio
Os pássaros pousam e esperam
Nem noite, nem dia
Calmaria
Na tranquilidade azul lilás
O mundo se refaz
Como se o dia amanhecesse novamente
Sem deixar dormir as flores
Sem permitir deitar os pensamentos
E ainda assim faz silêncio
É calmaria do dia que termina sem findar
E da noite que se anuncia sem chegar
Nem noite, nem dia
Calmaria
Eram pausas, respiro em meio a obscuridade que tantas vezes lhe tirara o fôlego.
Naquele dia, entregue ao silêncio que se fez com o cair da noite, adormeceu.
Quando voltou a abrir os olhos, era o dia que chegava. Viu e sentiu o reverso de tudo aquilo que vinha observando.
A mudança das cores, as tonalidades da luz, a transmutação do som e dos cheiros, o sentido de indefinição do momento.
Contemplou o entusiasmo que ecoava dentro ao ver os primeiros raios luminosos que anunciavam o novo dia que nascia.
E em sua cabeça, uma frase ressoava:
Quando o dia amanhece, amanheço. Quando o dia amanhece, amanheço…
Notou o pensamento renitente e, como a luz que clareia o céu ao amanhecer, compreendeu.
Quando o tempo parece suspenso, quando parece vazio, tudo posso fazer acontecer.
Quando amanhece, posso amanhecer.
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