Texto de Beatriz Margem Clique aqui para ouvir a história (narração: Clara Meira) Passou a repetir aquele momento todos os dias no mesmo horário. Quase como um ato solene. Não importando o que estivesse fazendo, parava. Porque Alice gostava de se deitar no chão e sentir a chegada da noite, a mudança das cores. As tonalidades da luz. A transmutação do som e dos cheiros, o sentido de indefinição do momento. Nem noite, nem dia. Nem claro, nem escuro. Nem quente, nem frio. Pensava absorta em devaneios. Com as luzes apagadas, quando a noite já havia invadido pela janela, ainda deitada sobre o chão que esfriava, esbarrou com a cabeça em um lápis caído. Aproveitou aquela sensação de liberdade, tão preciosa naquele tempo de rareamento de boas notícias, e deixou palavras soltas repousarem sobre o papel. Entre rabiscos desenhados, olhou as pala...
Texto de Ronaldo Lobo Clique aqui para ouvir a história (narração: Beatriz Margem) Naquele dia, Marilene acordou cedo sem saber direito que dia era. Calçou seu par de chinelo amarelo, lavou o rosto e colocou a água pra ferver. Foi até a sala, mas sua avó Neuza ainda dormia profundamente no sofá que tinha sido da sua bisavó. Passou o café e ligou o rádio prá ouvir seu programa de notícias favorito. Fazia isso todos os dias de manhã. Mas desta vez, tudo estava diferente. No rádio, uma voz suave falava de forma pausada, em um idioma desconhecido. Estranhamente, Marilene entendia a mensagem, que dizia: o mundo mudou. A partir de agora, ninguém compra e ninguém vende. Ela, sem entender direito o que se passava, trocou de roupa, olhou novamente dona Neuza dormindo no sofá e antes de sair de casa para trabalhar no salão onde fazia unha, pensou: vovó nunca foi de dormir até essa hora!? Mais cedo, havia deixado a xícara dela na mesa, o café na garrafa ...