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O Mundo Mudou


Texto de Ronaldo Lobo
    Naquele dia, Marilene acordou cedo sem saber direito que dia era. Calçou seu par de chinelo amarelo, lavou o rosto e colocou a água pra ferver. Foi até a sala, mas sua avó Neuza ainda dormia profundamente no sofá que tinha sido da sua bisavó. Passou o café e ligou o rádio prá ouvir seu programa de notícias favorito. Fazia isso todos os dias de manhã. Mas desta vez, tudo estava diferente. No rádio, uma voz suave falava de forma pausada, em um idioma desconhecido. Estranhamente, Marilene entendia a mensagem, que dizia: o mundo mudou. A partir de agora, ninguém compra e ninguém vende. Ela, sem entender direito o que se passava, trocou de roupa, olhou novamente dona Neuza dormindo no sofá e antes de sair de casa para trabalhar no salão onde fazia unha, pensou: vovó nunca foi de dormir até essa hora!?
    Mais cedo, havia deixado a xícara dela na mesa, o café na garrafa e meia dúzia de torradas num pote ao lado da manteiga. Sua avó adorava torradas e ensinou Marilene a fazê-las quando ainda era adolescente. Talvez pensando que um dia já não seria mais tão fácil lidar com o forno. A memória de dona Neuza não era mais tão boa e, volta e meia, ela esquecia o fogo aceso. Para evitar o perigo, sua neta adiantava tudo que era possível.
     Quando Marilene abriu a porta para ir trabalhar, percebeu que a rua estava vazia, não havia ninguém. O céu parecia mais limpo. Bichos andando soltos pela rua. E até o valão de outrora, que cheirava a esgoto, estava mais claro, com alguns peixes nadando. Seguiu até o ponto de ônibus e nos 20 minutos de caminhada lembrou da voz estranha do rádio. Como podia aquilo? O rádio quebrado, que não permitia trocar de estação, não tocou meu programa favorito. E aquela voz diferente não saía da cabeça dela: o mundo mudou. Agora ninguém compra e ninguém vende.
    Chegou no ponto de ônibus, que todos os dias estava lotado, e percebeu que não havia ninguém. Ficou um pouco assustada, mas decidiu esperar. Depois de 1 hora, não havia passado nenhuma condução. Nem o 431 que passava toda hora lotado. Pegou, então, o celular e tentou ligar para sua patroa. Queria avisar que não havia ônibus e, por isso, não poderia ir trabalhar. Quando o celular acendeu, para sua surpresa e espanto, a mesma mensagem apareceu: o mundo mudou. A partir de hoje ninguém compra e ninguém vende.
     Marilene correu assustada em direção a sua casa. Só pensava na sua avó, dormindo no sofá até aquela hora. Chegou em 10 minutos. Quando abriu a porta, seus olhos também abriram. Estava deitada na sua cama e viu dona Neuza sentada na cabeceira, com uma xícara de café na mão, dizendo com calma: você sonhou, minha filha. Levanta, toma seu café com calma e quando terminar a gente vai para horta fazer nossa colheita. Separamos aquilo que iremos comer e dividimos com as outras pessoas aquilo que sobrar.
     Marilene sorriu, deu um beijo na vó e, aliviada, deu o melhor gole que uma pessoa pode dar em um café. Em seguida pensou: o mundo mudou e partir de hoje nós vamos dividir tudo o que sobrar para que não falte nada para ninguém.

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