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Bão Beleléu Senhor Capital

Bão Beleléu, Senhor Capital

Texto de Beatriz Margem



     Foi em 1939 que a loja Floriano Construção abriu suas portas pela primeira vez. Em plena Av. Marechal Floriano, próximo à tumultuada feira da Uruguaiana e à movimentada Av. Presidente Vargas. A casa conhecida por “ter tudo reunido em um só lugar, para quem procurar” manteve sua tradição, passada de pai, para filho, para neto.
      Sr. Alberto Neves, hoje com 68 anos, dedica-se diariamente a prestar um serviço de qualidade aos seus clientes, no empenho assíduo de manter o nome e a tradição do negócio da família.
      Quatro funcionários se revezam em dois turnos para manter a loja funcionando. Ainda assim, Sr. Alberto desde que se separou de Dona Rosa, só deixa a loja para um pequeno lanche ou para resolver assuntos no banco.
      Esporadicamente, quando seu cunhado Joaquim insiste muito, se permite almoçar um sanduíche e tomar um chopp no Paladino, bar e mercearia tradicional da região. Mas faz sempre questão de enfatizar: “Só aceitei porque fica perto da loja”.
      Orgulhoso como ninguém, não admite de forma alguma (para não demonstrar fragilidade), mas aguarda ansiosamente por um convite de Joaquim, seu grande e talvez único amigo presente.
    
     Um dia, numa quarta-feira, enquanto lia as principais notícias nas folhas do jornal e percebia olhares estranhos e um certo incômodo de seus funcionários, Alberto recebeu uma ligação.
 
- Alô! Alberto! O que você está fazendo aí, homem?!
Fingindo não reconhecer a voz, perguntou:
- Quem está falando?
- É o Joaquim. Você não está sabendo do que está acontecendo no mundo todo? Tem muita gente morrendo! É uma pandemia!
- Ah, Joaquim! Deixa disso! Eu tô achando isso tudo muito exagerado!
- Não é exagero, Alberto! A situação é muito grave! Você precisa fechar a loja. É loucura você se expor assim e expor as pessoas que trabalham com você.
- EU NÃO POSSO FECHAR A LOJA! NÃO ADIANTA INSISTIR!

     Após uma pausa de silêncio e um suspiro, Joaquim continuou:
- Meu amigo, falei com Helena hoje cedo. Ela está muito preocupada. Você sabe que na sua idade, a gravidade da doença aumenta, não sabe? Tenho certeza que você já leu nos jornais.
- Minha filha fica me amolando todo dia por causa desse tal de Coronavírus. Mas que história chata! Parece até que vocês não sabem que eu tenho contas a pagar! Tenho que pagar salários! E se todo mundo parar, como vai ficar a economia do país? Já pensou nisso? O país vai quebrar! Ah não, Joaquim! Meus clientes precisam de mim! Agora então que estão ficando em casa, precisam de peças da minha loja pra consertar o que der problema. Não param de me ligar!
- Está bem, Alberto. Não adianta falar mesmo… Espero que você fique bem. Só peço que pense com calma sobre o que você está fazendo.
 
     Já estava quase na hora de ir para casa. Muito aborrecido, desligou o telefone, fechou a loja e, como todo dia, pegou um ônibus na Presidente Vargas para casa.
      Esquentou a comida que Janete deixou pra ele e jantou vendo o noticiário da noite.
      Depois de trocar de canal três vezes, desligou enquanto praguejava:
 
- ESSES JORNALISTAS ADORAM UM SENSACIONALISMO! SERÁ POSSÍVEL QUE NÃO SABEM FALAR DE OUTRA COISA!!!

   Terminou de comer resmungando e reclamando que Janete era paga pra colocar pimentão na comida dele: “EU ODEIO PIMENTÃO!” 

   No dia seguinte, Alberto chegou na loja um pouco mais tarde. Encontrou as portas de ferro arriadas e seus funcionários o esperavam apreensivos, do lado de fora.
   Sem acreditar no que via, aos brados perguntou enraivecido:
 
- Posso saber o que está acontecendo aqui? Porque a loja ainda está fechada?
- Sr. Alberto, o senhor tem que fechar a loja. Está todo mundo dizendo que a gente pode até morrer com esse vírus – disse João.
- E você por um acaso agora é o dono da loja?
- Não senhor, mas é que…
- Sem mas! Abram a loja agora! Desde 1939 a Floriano Construção nunca fechou, a não ser em dias de feriados nacionais! Não vai ser o risco de uma gripezinha que vai me fazer fechar a loja.
 
   E trabalharam normalmente o dia todo.
   Nesse mesmo dia, ao chegar em casa, sua filha Helena o esperava sentada no sofá da sala.
   Ela usava uma máscara, tinha um olhar sério que ele não via desde quando ele lhe contara sobre a separação. Sr. Alberto pensou que talvez a máscara o fizesse reparar mais nos olhos dela. Talvez fosse só isso.
 
- Oi, filha! Você está aí? Tudo bem com você e as crianças?
- Pai! Você não vai mais pra loja! Será que não adianta todo mundo te alertar!? Eu tive que sair de casa durante a quarentena. Deixei meus filhos sozinhos pra ter que convencer um velho teimoso! Não pode ser assim, pai. Chega! Você precisa se proteger!
- Filha, isso é exagero. Você sabe que eu não posso fechar a loja. Tem as contas, o salário do pessoal, a pensão da sua mãe.
- A gente vai resolver tudo. Você tem aquele dinheiro guardado da venda da casa da vovó. Economias são pra isso, pai, para os imprevistos. E o tio Rubens não te ajudou com as finanças da loja? Falei com ele e ele disse que você fez uma reserva financeira justamente para situações emergenciais como essa, que daria para manter a loja fechada e pagar os salários sem grandes prejuízos.
- Pagar salário pra não trabalhar? Você não pode estar falando sério! Não vou fechar a loja. E PONTO FINAL! Não quero mais ninguém se metendo no meu negócio.
- Pai, você precisa me escutar. Joaquim está com suspeita de estar com coronavírus.
- O quê? O Joaquim?!
- Sim.
- E é grave?
- Ainda não sabemos. Mas ele está apresentando muitos sintomas. Vinha tossindo, mas achou que era só alergia. Ontem teve febre a noite e começou a ficar muito ofegante. Ele me ligou. Disse que tentou te convencer, mas que você não o ouvia. Depois me contou que falou com um amigo médico sobre o que estava sentindo, e que tinha grandes chances de ser o vírus. Ele deve ser hospitalizado.
 
   Alberto ficou parado em silêncio. Seu ar agressivo tinha sumido. Sentia faltar o ar e seu olhar fitava o vazio, olhando de um lado a outro, como quem procura respostas.
   Helena observava seu pai. Ela tinha um olhar triste e cansado. Pegou sua bolsa e caminhou até a porta. Ao sair, olhou nos olhos dele e disse com uma voz firme:
 
- Ligue para o Joaquim. Apenas escute. Não voltarei mais na sua casa por um tempo. Vou seguir as recomendações de prevenção, e ficar em casa. – E após um breve silêncio, com a voz já não tão firme, falou – Eu e as crianças amamos você, vovô Alberto. Boa noite, papai.
 
   Sr. Alberto sentou no sofá, onde ficou por alguns minutos percebendo aquela sensação que ainda não tinha sumido desde que Helena contou sobre Joaquim.
   Por hábito, pressionou o botão do controle remoto e começou a assistir ao noticiário.    Assistiu como quem recebia a notícia pela primeira vez. Levou a mão direita sobre a boca, compenetrado, e enxugou o suor que lhe escorria sobre a testa.
   Quando o noticiário acabou, após desligar a TV, passou a ler  informações no celular, antes ignoradas por ele. Leu notícias de vários países, acessou as estatísticas da pandemia em todo o mundo. Leu sobre a economia e os riscos do país; sobre a vulnerabilidade dos mais pobres e daqueles sem uma renda fixa, e as medidas que vêm sendo tomadas em outros países.
   Quando olhou novamente em seu relógio de pulso, viu que tinham passado mais de 3 horas.
   Estava exausto.
   Era tarde para ligar para o Joaquim. Por isso resolveu mandar uma mensagem:
“Sinto muito por não te ouvir, Joaquim. Você tinha razão. Estimo melhoras.”
 
  No mesmo instante em que enviou sua mensagem, seu celular começou a vibrar incessantemente. Eram novas mensagens de Helena:
“Pai, esqueci de te falar algumas coisas. Avisei à Janete pra não ir mais. Ela iria amanhã, de novo, pra fazer faxina e comida como combinado, mas eu cancelei.
Eu também não poderei ficar indo sempre para ajudar com compras e as coisas da casa como de costume. Não sei nem se vou ao mercado. Então estou pensando em fazer umas compras grandes pelo telefone e mandar entregar na sua casa, ok?! Te aviso.
Falou com Joaquim?
Fica em casa!
Beijos. Boa noite.”
 
   Leu as mensagens e aproveitando que o celular estava na mão, mesmo sendo tarde, decidiu ligar para seus funcionários.
   Disse a todos que ficassem em casa e que cuidassem de suas famílias.
   João, o funcionário que tentou argumentar mais cedo, emocionado, agradeceu inúmeras vezes, e disse ao Sr. Alberto que ele era um homem muito justo. Confessou que estava muito assustado de ter que pegar dois ônibus e trem pra trabalhar todos os dias, já que morava em outro município.
   Sr. Alberto desligou da última ligação se sentindo mais leve. João nunca tinha conversado tanto com ele. Os outros também falaram sobre suas vidas simples, suas vulnerabilidades e esperanças.
   Se perguntou confuso o porquê de nunca ter conversado com aquelas pessoas. Eram aqueles com quem partilhava a maior parte de suas horas. Porque permaneceram como completos estranhos por tanto tempo?
   De repente, foi invadido por um sentimento de empatia, uma sensação de que, de alguma forma, estava ligado àquelas pessoas.
   Sorriu.
   Comeu apenas uma fruta e, depois de tomar um banho, deixou seu corpo pesar sobre a cama e dormiu um sono pesado.
   No dia seguinte, Sr. Alberto acordou bem disposto e foi à loja.
   Organizou alguns materiais, mandou e-mails e fez ligações  para os principais clientes.
   Garantiu que água e luz estivessem desligados e, após colocar comunicados sobre o fechamento da loja nas paredes externas, retornou para sua casa, disposto a se submeter à quarentena.
   Passou os dois primeiros dias vendo noticiários, filmes, lendo mensagens e notícias no celular e comendo o que tinha no congelador.
   “Ninguém nunca me ensinou a ficar sozinho à toa!”, pensava ele sentado no sofá, enquanto buscava mais um filme para assistir.
   No quarto dia, no congelador, só haviam sobrado um pote de feijão e algumas sobras velhas que ele mal distinguia o que era.
   Nunca soube cozinhar.
   Fritou um ovo em silêncio e cozinhou macarrão.
   Cobriu o macarrão com o feijão enquanto sentia uma angústia incontrolável. Estava ansioso e se sentia mais preocupado do que o normal.
   O banheiro fedia, a comida pronta acabou e a casa permanecia num silêncio avassalador.    Ele só desejava poder ir trabalhar, atender a alguns telefonemas, organizar peças nas prateleiras e ajudar seus clientes com seus pedidos.
   Mas tinha que ficar em casa.
   Colocou o Roberto pra tocar no som e almoçou em silêncio. Roberto Carlos lhe lembrava de sua mãezinha falecida, o que sempre lhe confortava em dias difíceis.
   Enquanto lavava a louça, resolveu que ligaria para Joaquim.
   Discou os números no disco do telefone fixo e aguardou completar a chamada. Quem atendeu foi sua irmã Jacira que, com a voz trêmula, lhe contou sobre a internação: “Joaquim foi internado em estado grave, Alberto. Está na UTI e precisa de aparelhos para respirar.”
   Estarrecido com o estado de saúde de Joaquim e a possibilidade de perder o único amigo próximo que lhe restava, Alberto perambulou pela casa sem saber o que fazer com tantas horas livres. Os dias se arrastavam.
   Nem Helena, nem Jacira tinham ligado ou mandado mensagens fazia dois dias, e Alberto devaneava tolamente sobre as vidas descartáveis dos corpos envelhecidos.
   Somos apenas números na estatística do governo; esse governo que elegi – pensava.
       O presidente proferia absurdos em rede nacional, convocava pessoas a irem trabalhar e profanava as vidas dos idosos.
   Corpos descartáveis e esquecíveis.
   Numa dessas tardes vazias, quando imerso em sua solidão e pensamentos, Sr. Alberto foi desperto pelo toque do telefone. Era Janete, a diarista, que ligava em uma chamada de vídeo.
 
- Oi, Sr. Alberto! Como tá o Sr.?
- Oi, Janete. Vou levando. E você? Como vai sua família?
- Oh, Sr, Alberto! Tira o telefone do ouvido! Eu tô aqui! Olha pra tela!
 
   Confuso, olhou pra tela envergonhado e risonho e peguntou novamente sobre a família de Janete.
 
- Sabe como é pobre né, Sr. Alberto?! A gente passa uma necessidade ou outra, mas vai se ajeitando. A gente junta a família e todo mundo dá um jeito de ninguém passar muito aperto. Mas e o senhor? Tô preocupada, viu? Tá comendo direito? Achei o senhor magro.
 
   Ao longo da tarde, os dois conversaram durante uma hora e meia. Janete contou muitas histórias sobre a comunidade em que vive, sobre as dificuldades e a força do povo que lá mora. Contou sua história de vida.
   Enxugando algumas lágrimas fugidias, emendou em uma série de piadas que seu neto tinha lhe contado no dia anterior.
   Alberto riu com suas histórias e sua graça como não ria fazia anos. 
   Janete preocupada com o bem-estar de Sr. Alberto, lhe ensinou algumas receitas, explicou o local onde guardava o material de limpeza e pra que servia cada um deles.    Depois se despediu, avisando que tinha que preparar a janta.
   Sr. Alberto desligou a chamada. Nunca tinha feito uma chamada de vídeo.
   Olhou a sala vazia, o silêncio.
   Pegou de volta o celular que tinha pousado sobre a mesinha de centro e mandou uma mensagem de voz:
 
”Janete, não se preocupe mais com as contas. Vou manter suas diárias, mesmo sem você vir.
Vai ficar tudo bem.
Gostaria de saber se você se importaria se eu te ligar quando precisar, ou quando der vontade de bater um papo.
Obrigado por ligar.”

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